segunda-feira, fevereiro 07, 2005

Talvez um minuto a mais

Realmente o tempo é o senhor da razão. Os dias têm-se tornado menos difíceis e a angústia, antes quase insuportável, agora aparece com menos freqüência. Pelo menos em sonhos, como pude constatar esta noite, tive a mente tranqüila.
Lógico que a saudade, a falta, o vazio, permanecem. Não sei quanto tempo isto ainda há de perdurar, contudo tenho feito o possível para que tais sentimentos e sensações não ocupem tempo integral. E quando eles vêm, deixo que me tomem, porque sei que assim estarei, ao final do processo, realmente pronta.
É estranho como a vida pode tomar outro rumo e sentido após uma perda. Ao menos no meu caso, na medida em que a dor diminui um pouco, consigo enxergar claramente o pouco caso que fiz da minha vida e das minhas convicções e valores. Nestes momentos de lucidez, lamento por não ter agido pró-ativamente. Fico feliz por ao menos estar tendo a chance de rever o que deixei pra trás, poderia não ter tido esta oportunidade. E sei que estes momentos de lucidez, na mesma proporção em que o tempo passa, serão constantes e voltarei a ser quem deixei pra trás, quase que sem vestígios.
Se o peito ainda está apertado, se a mente está confusa e se meus olhos ainda derramam lágrimas, não me lamento mais por isso. Faz parte da dor. Faz parte da perda e complementa o aprendizado. Estou no caminho mais difícil, mas não procuro a fuga como remédio imediatista pro que sinto. Se assim o fizesse, tenho a impressão de que repetiria todos os erros na semana que vem.
É engraçado... só assim consigo classificar este infortúnio. Na primeira vez em que me apaixono realmente, que amo e desejo uma pessoa, sou submetida a esta prova. Minha vida debochando de mim mesma. Pela primeira vez sofro por amor. Pela primeira vez, apesar da covardia, da traição, ainda desejo que a pessoa amada esteja ao meu lado, mesmo que passando por cima de mim. Mas isso não acontecerá. Jamais. E esta palavra dói ainda mais, simbolizando a morte, o nunca mais, o proibido, o sagrado. E na minha personalidade rebelde, torna-se ainda melhor, mais desafiador e irônico. Então tenho que lutar duplamente contra meus sentimentos. É, é realmente engraçado...
Menina mimada que não pode fazer o que quer. Menina criança que precisa discernir o bem do mal. Menina adolescente que sofre por amor. E menina adulta que aprende a recuar e recomeçar. Como se fosse a única vítima da face da Terra, como se seus problemas fossem muitos maiores e dolorosos que de todos os outros. Papel bom, este. Desculpa esfarrapada para o movimento, ação para sair da estagnação, força interior que existe, mas dorme tranqüila, ressona, talvez em lindos sonhos.
Acompanho de perto, como se estivesse observando de longe, as minhas reações e vontades. Conhecendo o que se passa no meu interior, a pessoa doce que sou e minha incapacidade de guardar mágoa, rancor ou raiva de alguém, dou risadas sarcásticas do embate entre o bem e o mal dentro de mim. Como numa briga silenciosa, mas carregada de discórdia, aguardo o resultado, que desejo ser apenas um: a indiferença. Quando não restar nem sentimentos bons nem ruins, quando não fizer falta, não existir saudades, e a indiferença prevalecer, estarei pronta. Fortalecida. Feliz.
E aos que permaneceram neste momento ao meu lado, aguardando pacientemente este tormento, tenham a certeza de que sei exatamente quem são. E se os esqueci, abandonei, ignorei nos últimos 360 dias da minha vida, peço perdão e ofereço minha gratidão. Sem vocês, não estaria aqui, neste momento, num embate misterioso entre o que sinto e o que preciso fazer. Assim como espero o tempo passar, espero poder fazer por vocês tudo o que estiver ao meu alcance. Sem esquecer de mim, claro, como há tempos fiz ...

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