Ontem não pulei elástico, não pulei corda, não me pendurei nas árvores. Não joguei pedrinha no Guaíba, nem vi pela centésima vez toda a minha coelação de desenhos do Walt Disney. Muito menos brinquei de verdade ou conseqüência, pega-pega e polícia e ladrão com os meninos, pra ser presa pelo menino que mais gosto. Não brinquei de Bela Adormecida na kombi indo pro colégio, não dei aula pras outras crianças. Não joguei Jogo da Vida, Detetive, Banco Imobiliário, apesar destas brincadeiras continuarem bem presentes hoje em dia. Não reclamei do charque no feijão, não transformei o bagaço da laranja que sobrou no expremedor em comidinha das bonecas, não brinquei de aeromoça 5 horas seguidas. Não tinha festinha de aniversário de ninguém pra eu levar maquiagem, figurino, fita cassete e sapatilha pra apresentar minhas lindas coreografias e aparecer mais que o aniversariante, nem aniversário de amiga pra usar o sapato mais alto da minha mãe e quebrá-lo. Não guardei a blusa sem lavar porque dancei com o menino mais bonito da reunião dançante, nem dancei grudada na vassoura, nem fui rena do papai noel no espetáculo do ballet. Não fundei o Clube do Bocão da gelatina Royal, com camiseta, carteirinha e mensalidade, muito menos fui líder de turma desde a 1ª série. Não organizei passeios com a turma do colégio que não deram certo, nem fui pra casa da minha amiguinha da primeira série sem avisar pra minha mãe enquanto ela tinha surtos de desespero em casa. Não me mandaram ir ao caixa eletrônico aos 7 anos de idade, absurdamente longe de casa e voltar com muito dinheiro no envelope passando, inevitavelmente, em frente a uma loja de brinquedos com todas as barbies que nunca tive. Não tirei fotinho no pônei em Mariluz, nem fiz castelos para que as ondas os derrubassem e esta fosse a parte mais divertida, sendo que hoje detesto ver castelos desmoronarem. Arrumei minha cama, lavei a louça, escovei os dentes e tomei banho de verdade, não liguei o chuveiro, molhei o cabelo na pia e fiquei esperando o tempo passar. Também não brinquei com o chuveirinho. Mas também não brinquei de médico, o que ia ser legal. Não ganhei o troféu de maior número de livros retirados da biblioteca da escola, nenhum troféu de melhor redação ou mesmo não fui chamada de The Flash por terminar os exercícios antes de todo mundo e ir correndo mostrar pra professora e me aparecer de novo. De novo, ninguém passou na minha sala e fiquei muito triste, porque eu treinei horas a fio um trecho do livre A Família Treme-Treme para ser a que lia mais rápido e melhor de todas as 5ªs séries. Nem ganhei aquele bombom prometido. Não participei de eleições para o Grêmio Estudantil e continuo sendo uma das últimas a serem escolhidas para qualquer time de quelquer modalidade esportiva. Mas continuo sendo árbitra. Não ralei o bumbum, a côxa e tomei injeção porque andei de carrinho de lomba com mais quatro em cima, nem fiquei pendurada na árvora pela calcinha, de cabeça pra baixo, gritando por socorro. Não senti o cheiro de cachimbo do meu opa, nem fui com ele comprar Chokito. Não levei meu avô no colégio pra dar aulas sobre vermes e mostrar aquela coleção de vidrinhos cheios de bichinhos esquisitíssimos, nem fui fantasiada de princesa pro colégio. Não dancei a quadrilha, nem pus o vestido de prenda que minha oma fez. E as histórias dela sobre cachorros de olhos grandes e da Princesa Azul, também já se foram. Não pus no meu único sutiã de tecido rosa bolinhas de papel porque uma das minhas coleguinhas já apresentava pontinhos de peito, nem fiz um aparelho dentário de arame. Não vi minha professora de português verde e o médico não me perguntou se ela parecia um dragão, meu amigo imaginário e a platéia pra quem eu ensinava a tomar banho (nesta época eu gostava) sumiram - apesar das vozes permanecerem. Não fiquei com o rosto paralizado porque bati com a cabeça, nem destruí minha bicicleta novinha na lomba e pintei os arranhões com tinta têmpera. Não fumei galhinhos de samambaia, vi as vizinhas beijarem no terreno baldio, não desfilei de biquíni na beira da piscina, nem espiei meus pais pelo buraco da fechadura. Não desaprendi a roer as unhas, não brinquei com meu Fila, nem me lanhei toda na cerca viva atrás de framboesas - apesar do dobermann enorme bem ali, querendo me pegar. Não quebrei o braço, a perna, três dedos tentando segurar a porta pra não bater, nem meu pai fechou outra porta em outro dedo. E continuo a esperar minhas cortinas rosas enquanto vomito de ansiedade. Ontem, Dia das Crianças, infelizmente fiz coisas de adulto. E fiquei com muito medo só de pensar que posso vir, um dia, a pôr uma criança no mundo. Porque se ela for ao menos um pouquinho parecida comigo... céus... ela será muito feliz. E eu uma mãe totalmente adulta e chata para impôr limites, esquecendo de quem, um dia, eu fui...