segunda-feira, julho 03, 2006

Síndrome da cortina rosa

Ao completar 11 anos de idade, me foi permitida a ousadia de escolher meu presente de aniversário. E escolhi algo que sonhava há muitos anos e, com a realização de ter um quarto só pra mim, pois acabávamos de nos mudar para uma casa muito maior, vi ali a possibilidade de ter o que sempre quisera, como tinha minha melhor amiga: um conjunto de cortinas rosas, daquelas fofas, grandes, com bandô e tudo e uma colcha para combinar. Lembro como se fosse hoje. Tendo começado na infância esta mania de desenhar decorações, tracei em linhas tortas aquele sonho infantil. Era como se aqueles metros imaginários de pano emoldurassem a janela dos meus olhos para aquele impulso de ter, finalmente, meu quarto parecido com o que tinha em sonhos.
E então minha mãe fez a encomenda. Explicou, detalhe por detalhe como ficaria meu quarto: praticamente um algodão doce. E então chegou o meu aniversário. E a cortina não veio. Calma, a costureira não havia terminado ainda. Mas amanhã vem. E amanhã já era hoje e mais uma vez eu esperei. Perguntei de cinco em cinco minutos, ansiosa pelo grande momento. E a cortina não veio de novo. Nos próximos dias que viraram semanas, debrucei-me na janela, olhando a rua -  "Ela vem hoje, filhota", numa expectativa tão grande que se realmente as coisas acontecessem pela força do pensamento, elas já estariam ali, eu enrolada naqueles fios tecidos em rosa. E a cortina não veio. Nem a colcha. Se não veio, foi-se algo: minha esperança. Passei mal durante muitos dias, minha barriga esfriava, roía as unhas, enjoava e meu corpo adoeceu de expectativa. Já era abril, meu aniversário é em fevereiro, e eu continuava esperando minha cortina rosa chegar. Mas ela jamais chegou. 
Hoje tenho o que chamo de "síndrome da cortina rosa". Não me prometa algo que não possa cumprir, não me deixe esperando porque os sintomas são os mesmos. A angústia não passou com os anos... Vou continuar olhando pela janela. Permanecerei esperando, com o mesmo otimismo, com a mesma credibilidade. Mesmo que eu saiba, lá no fundo, que a cortina rosa nunca deixou de ser apenas um sonho na minha fértil imaginação...

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