Sempre tive certa, ou melhor, grande dificuldade na brincadeira de pega-pega. Como desde pequena nunca treinei o exercício aeróbico - por causa do ballet e, ainda, sempre me livrava das intermináveis corridas ao redor da quadra de basquete - por causa do ballet, poderia me machucar - correr tornou-se meu grande ponto fraco. Alguns metros neste exercício e todo o meu corpo doía impiedosamente. Polícia e ladrão: sempre a presa mais fácil. Pega-pega: com certeza a primeira a sair da brincadeira. E assim cresci, com uma grande dificuldade de alçar vôos com as pernas.
Trouxe comigo para a vida adulta a incapacidade de correr. Se brincar de pegar. De inverter as posições e correr atrás do meu objetivo, ao invés de permanecer no papel de presa fácil. Hoje permanecem as desculpas para não me exercitar e sigo na posição de alvo, ainda não exercito a habilidade de correr. Só que de uma forma mais grave e estagnada do que permanecer sentada, fora da brincadeira: não corro, agora, atrás dos meus sonhos.
Permaneço numa corrida preguiçosa em que sou alvo do meu próprio destino, da rotina, do acaso. E quando sou pega por eles, fico de fora da brincadeira, assistindo a vida passar. Não aprendi a levar o corpo a exaustão; a preguiça e o comodismo ainda prendem meus pés. E meus sonhos continuam ali, alvos visíveis - difíceis, eu sei, são hábeis atletas - mas cansa tanto, é tão difícil!... Há ainda dois agravantes: o desistir de brincar por causa da dificuldade. Para quem não sabe perder, isso ser inevitável, é complicado demais.
E meus sonhos permanecem ali.... me olhando.... Ora no balanço, outra no escorregador, quem sabe bem aqui, ao meu lado, me fazendo de boba. Presa fácil uma vez que outra, porque competir com quem não sabe brincar às vezes é chato demais e a piedade faz com que demos uma chance. Então páram ao meu lado e, mesmo assim, os deixo partir. "Corram, estou cansada demais. Sou preguiçosa demais. Fraca demais". E então me obedecem e vão para longe, sentam tristes à beira do lago. Por não ter com quem compartilhar momentos felizes e de vitória. De cabeça baixa e olhar cabisbaixo, choram pela amiga que não consegue ir adiante. Que orgulhosa e birrenta, prefere amarrar a cara e sentar no chão desistindo da brincadeira. Mais uma lição: meus sonhos amigos têm ainda mais virtudes. Respiram fundo, levantam, sorriem e vêm ao meu encontro. E mesmo tendo que insistir ainda mais algumas vezes, perguntam se quero brincar outra vez. Como é de se esperar, faço um teatro falso negando a vontade aparente e então topo recomeçar. Com um final totalmente previsível e cíclico: desisto sempre outra vez. Quando não troco de amigos para que a brincadeira fique mais fácil e na verdade nem gosto deles tanto assim. Mas quem sabe sejam sonhos mais fáceis, sejam sonhos de outros e não os meus - pessoas influenciáveis trocam de amigos por causa de outros, ou então porque aquele sonho amigo cansou demais de me esperar aprender...
Tenho pensado muito e me empenhado ao máximo para perder a vergonha, o medo, a preguiça e então aprender a correr. Mesmo que eu pareça muito desengonçada por causa dos pés pra fora (como uma patinha), mesmo que eu precise parar um pouco e voltar a correr, mesmo que eu precise primeiro aprender que não pode-se respirar pela boca senão a resistência diminui, ainda que eu precise de um tênis novo ou então sacrificar-me com os pés em bolhas, no chão. Mesmo que eu ainda precise perder algumas vezes para, finalmente, pegar meu sonho mais precioso e secreto, ofegante, emocionada, vencedora, abraçá-lo com carinho e dizer bem baixinho, ao pé do ouvido: obrigada por ter esperado tanto tempo para que eu pudesse aprender a brincar de pega-pega.