Nunca fui uma criança que passasse horas brincando de casinha. Bem pelo contrário. Estava mais preocupada em estar na rua andando de bicicleta, batendo perna, pulando muro e fumando samambaia. Sim, eu fumava samambaia. Mas isso é papo pra outro post.
Pois então. Além de quase não brincar de casinha, eu tinha um diário. E, neste diário, está registrado: em 1990 eu escrevi como seria a minha casa e sobre o meu sonho de morar sozinha. Eu tinha oito anos. Retomando minhas agendas na adolescência, lá está também meu desejo mais profundo: a minha casa. Até fiz várias tentativas na casa dos meus pais, tentando me mudar para uma peça separada da casa. Mas o sonho tão acalentado só se concretizou 14 anos depois daquele longínquo 1990 de páginas rosas com cheiro de chiclete e cadeado frágil.
E faz três anos e pouco que tenho a minha casa. Proporcional ao número de anos, o número de mudanças. É o terceiro apartamento que ocupo para chamar de minha casa mas, até então, nenhum deles tinha ficado próximo daquilo que tinha definido como minha casa. Até o dia de ontem. Finalmente.
Concluí a minha casa ontem. A casa dos meus sonhos. Muito tempo depois. Muito esforço depois. Ainda não é minha, minha, mas pago para que seja, então o é. Os móveis na posição, no modelo e na cor com que sonhei. A decoração. A louça. E o bicho de estimação. Sim, até ele. Tive que trocar de tipo, pois minhas ausências freqüentes seriam a tristeza de um cachorro. Pois agora tenho um gato que peguei em adoção. Adotei alguém que precisava de mim, assim como preciso do bichano.
E então a casa está pronta. Finalmente terminei de brincar de casinha. Tudo está em seu lugar. Ainda faltam detalhes, é claro, mas a gente não pode ter o motor home da Barbie, o carro da Barbie, a pia da Barbie. A gente tem o básico e umas firulinhas, o suficiente para uma deliciosa brincadeira. Porque o resto, ou a gente imagina, ou aproveita sorrindo o que tem.
O único problema é que agora minha casa ficou tão, tão gostosa, que não tenho mais vontade de sair de lá. Dá pra voltar lá pra 1990? Pelo menos na infância a gente pode brincar o dia inteiro de casinha....

Petit Pois (Peti poá) e eu brincando de casinha