Sou de lua até para fazer malas. Já fui muito objetiva, na época em que viajava a trabalho. Uma valise destas de mão, com uma muda de roupas, um par de sapatos e itens de higiene bastava para uma viagem de dois dias. Já exagerei, como na viagem a Buenos Aires, uma escada de trinta degraus para chegar ao hall do hostel e uma mala maior que eu. E já fui modesta, na viagem ao Uruguai, dividindo o porta-malas de um celta com outras 3 mulheres e uma passagem pelo Chuí.
Mas desta vez bati todos os meus recordes de insanidade.
Comentei por aqui que ganhei, de veículos e agência, muitos perus, tenders, lombos e chesters. Que foram recebidos com alegria para as ceias de natal e ano-novo, uma economia para o bolso aqui. O problema é que a bicharada congelada e eu estavam aqui, e as ceias a 1500km. Contei com a solidariedade do freezer e do isopor do chefe até a data de levá-los pro sul. Onde começa a saga do peru.
No sábado de manhã, antes de viajar para Porto Alegre e na expectativa de 17 dias fora de casa, me vi com praticamente todo o guarda-roupa em cima da cama. Tentei racionalizar. Bastava coordenar as peças, o quê combinava com o quê, com par de sapato tal. Impossível. Tudo parecia absolutamente necessário, afinal de contas, provavelmente teria 4 estações num dia só em cada um deles, além de natal, ano-novo e praia. Eu precisava de todas aquelas roupas e sapatos espalhados pelo quarto.
Na sala, estavauma cesta de natal que pesava 11kg. Na casa do chefe, um isopor com 19 kg de peru dentro. E ainda faltavam os presentes. Na prática, já estava absolutamente estourada nos 23kg que teria de direito na embalagem de sardinha da Gol.
Voltei para o quarto. Comecei a arrumar as malas. Separei uma pequena para as calças e os sapatos, com a pretensão de levá-la na mão e pagar menos excesso de bagagem. Roupas, roupas, roupas, roupas, presentes, bijus, itens de higiene, maquiagens, mais roupas, toalhas, chapéu, ufa. Sentei em cima da mala. Não fechava nem pulando em cima. Tirei tudo de novo. Olhei pra todas as roupas. "Ah, precisa mesmo destas 25 blusinhas?" Precisava. "E destes 9 pares de sapato?" Óbvio. A própria centopéia. Bom, tirei 2 das 9 bermudas, 1 vestido, 2 blusas, 1 calça jeans. Ainda assim ficaram as 4 bolsas. Suei, mas a mala fechou. Com toda a força que não tenho, levei a mala até a sala e constatei ali: uma cesta de natal, uma mala gigante, uma mala pequena, duas sacolas, uma bolsa e ainda teria um isopor. E eu. Somente eu. Incapaz de raciocinar que aquilo ali, além de ridículo, era praticamente impossível de transportar.
Vou encurtar a parte de segurar a porta do elevador, esquecer de ter usado o de serviço, continuar trancando o elevador porque esqueci da bolsa, fechar a porta, descer até a recepção, o olhar de chocado do taxista, a mala caindo em cima do pé, entrando no táxi, um trânsito infernal para buscar os perus, pegar o isopor (infinitamente maior e mais pesado do que eu poderia supor) e ir para Congonhas num trânsito mais infernal ainda.
Retomamos a saga quando estava eu, podre dentro do táxi, rezando para chegar a tempo em Congonhas. Não para pegar o avião. Para pegar o ônibus (!) que me levaria a Guarulhos. Era 12h30min. Meu vôo era as quinze pras cinco. Foi só o carro parar para eu sair correndo com as sacolas, o taxista tentando segurar minha mala, eu voltando pra pegar a malinha, o taxista cambaleando com os perus. Ainda deu tempo de pagar a corrida, a gorjeta e sentar esbaforida no ônibus. Chegando em Guarulhos, uma hora depois, é óbvio que tudo não coube num carrinho só. Quero que imaginem a coordenação em pessoa empurrando sozinha dois carrinhos aeroporto afora, inclusive na fila do check-in. Ah, o check-in...
Uma fila imensa depois, fui parar num guichê de um simpático e falante rapaz. Já cheguei com um sorriso friamente calculado, que poderia valer generosos descontos na pesagem da minha pequena bagagem. A esta altura do campeonato meus braços, principalmente o direito, já estavam em estado de miséria. A balança foi implacável: 59kg de bagagem e prejuízo à vista. Muitos cálculos depois, meu prejuízo era de R$ 145,00. Aproveitei o fato da mentirosa cantada sobre a foto bonita da identidade para o charme infalível que homens idiotas caem: "Ah, não rola um desconto de natal? Estou à serviço do papai noel...". Um sorriso depois, a máquina do cartão acusava R$ 85,00. Sorri e agradeci silenciosamente. O rapaz etiquetou vagarosamente cada uma das malas, não sem antes destruir a fita tape que embalava cuidadosamente o isopor (era preciso conferir a mercadoria) e meus pedidos encarecidos de que embalasse tudo depois do mesmo jeito que estava. Quando uma abençoada alma passou atrás dele dizendo: "Fulano, não esquece que liberaram 40kg". Soou como música. Ele me olhou atônito e eu, com um sorriso de orelha a orelha. Mais uma vez num gesto de pura solidariedade (:P) o rapaz foi atrás da máquina para estornar o pagamento. Estava sem bateria. Foi carregar. Voltou. Não sabia a senha. Foi atrás de quem sabia. Acabou a bateria de novo. Recarregou. Enfim. Uma hora depois de eu ter estacionado os dois carrinhos no balcão, me livrei daquela tralha toda, agradecendo o rapazinho que fez meu sorriso valer R$ 145,00, sem ter pago 1 real por excesso de bagagem.
Chegando em Porto Alegre, esperei tensa na esteira toda a muamba. Passei toda a viagem pensando se teria forças para levantar sozinha os perus. Esperei. Esperei. Esperei. Passaram todas as malas do mundo. Matematicamente era impossível que, aleatoriamente, nenhuma bagagem minha tivesse passado. Gelei. Tava aí a explicação para o desconto: extravio. Esperei mais um pouco. Quando surgiram na esteira todas as malas e um isopor partido em mil pedaços e os perus pra fora. Mas ainda duros. Tá, chega de trocadilhos imbecis. Ergui do jeito que pude o que restava do isopor, conferi se tava tudo ali e saí, enfim, salão afora, pronta para entregar nas mãos de quem fosse aquela tralha toda. E ali estava apenas a minha mãe, que dispensou todos, dizendo ser desnecessário mais alguém. Ainda precisei içar tudo para dentro do carro e para a volta restaram as malas e sacolas "apenas".
O quê? Você vai ler o fim deste post? Parabéns pela paciência e persistência. o fim é sem graça, mas fiquei dois dias sem conseguir mexer meu braço direito, não é fácil ficar levantando assim. Mas os perus foram devidamente distribuídos e devorados no natal. Valeu a pena. Agora tenho uma história de natal pra contar.
12 comentários:
HAUHAUAHUAHUAHUAHUAHUAHA
AHUAHUAHUAHUHAUHA
A D O R E I!
Posso contar pra todo mundo essa história?
Que pena pelo isopor!! (rsrsrs)
E tua mae!! Onde já se viu dispensar todos de sua chegada!!! Se fosse aqui estaríam te esperando com cartazes e faixas!!! (é uma situação desesperadora e maravilhosa ao memso tempo)
PS.: Minha amiga Elisa tb gostou das mudanças no blog! Valeu!
Ai Pri, que sarro!!! Sei la se a mensagem foi tua, mas voltei às loucuras normais.
Sim, a mensagem era minha, Carol!! Quero saber de tudo daqui a pouco.
Ué, Simo, pode contar, sim.
É que minha mãe adora exclusividade nem que seja do aeroporto até em casa. :P
Mulheres...mulheres, sempre se aproveitando do chip masculino, em várias situações. Isso não se faz.
hahahahahaha
Um 2009 com muitos descontos nas coisas não legais. Com muita promoção "pague 1 e leve 10" nas coisas muito legais, legais, mais ou menos legais e nas cestas de natal de novo também.
beijos Pri!
Como não se faz!?!? Vcs é que não deveriam cair, hahahahaha
Giesen, linda essa frase. Vai ser redator, ô coisa! :))
O mesmo em dobro pra ti, meu querido... beijo gigante.
eu li até fim.
mas, vem cá, com o calor que fez no natal, os perus não chegaram com o apito pra fora, aquele que indica que o bicho já tá assado?
:***
Dani!!! Feliz 2009!!
Por incrível que pareça, os bichos tavam congelados e duros como pedra. Tb, tavam num freezer há mais de 20 dias!
Beijo pra ti.
hahahha..muito bom. Ri várias vezes. Muitas ao lembrar da cena das escadaria do hostel e das malas de todas (menos a da Mona).
O post é longo, por isso só consegui ler agora, com calma. Menina, que apuros passou. E que aventura. E quanta sorte com o peso da bagagem. Enfim, é uma verdadeira história de Natal!
Beijo
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Cada vez que viajo também compro tantas coisas e roupas que não entram nas malas!
No meu apartamentos em Buenos Aires estava tão cheio de coisas que depois não pude levar tudo e tive que deixar algumas roupas minhas!
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